Todo feriado longo, o boletim é o mesmo: tantos mortos nas estradas, número parecido com o do ano passado. A sensação de que nada muda tem um fundo real. Entre 2007 e 2025, o número de acidentes registrados pela Polícia Rodoviária Federal caiu 43,2%. No mesmo período, o número de mortes nas rodovias federais caiu 10,3%. Metade dos acidentes desapareceu das estatísticas; as mortes, quase não.
Este estudo tenta entender essa distância. Ele usa uma única base, os dados abertos de acidentes da PRF, agregados por ano em quatro medidas: acidentes, mortos no local, mortos por 100 mil habitantes e letalidade (mortos a cada 100 acidentes). O ano de 2026 está incompleto na fonte e ficou de fora de toda conta de tendência. E o recorte é só a malha federal: rodovia estadual e rua de cidade não entram.
Duas curvas que deveriam andar juntas, e não andam
Se a estrada ficou mais segura, acidente e morte caem no mesmo ritmo. Não foi o que aconteceu. Colocando as duas séries na mesma base 100 no ano de 2007, a de acidentes despenca e a de mortes fica quase de lado. O vão entre elas é o assunto do estudo.
O número que mais impressiona é o menos confiável
A leitura fácil desse gráfico é a letalidade: se os acidentes caíram muito e as mortes não, então cada acidente virou mais mortal. E a série de letalidade confirma, com folga: de 4,9 mortos por 100 acidentes em 2014 para 8,3 em 2025, alta de 57,8%. É um salto que renderia manchete. O problema é o denominador.
Entre 2014 e 2018, o número de acidentes registrados pela PRF caiu 59,0%. Parte disso é menos acidente de verdade; parte é a corporação registrando menos, com efetivo reduzido a partir de 2015 e um novo sistema de registro em 2018 que deixou de lançar como ocorrência boa parte das batidas sem vítima. Como a letalidade é mortos divididos por acidentes, encolher o denominador por decisão administrativa infla a letalidade sem que nenhuma estrada tenha mudado.
Por isso o estudo tira a letalidade do centro da conclusão e se apoia em duas medidas que a mudança de contagem não toca: o número de mortes, que vem da coluna de óbitos do boletim, e a taxa de mortes por 100 mil habitantes.
O que sobra: uma melhora que travou
A taxa de mortes por 100 mil habitantes conta uma história em três atos. Subiu forte até 2011, de 3,6 para 4,5 por 100 mil (+25% no período). Caiu de 2011 a 2019, de 4,5 para 2,5, uma queda de 43,6%, cerca de 8,0% ao ano. Esse é o trecho de ganho real, e coincide com câmera de velocidade, lei seca mais dura e airbag virando padrão. Depois de 2019, parou: a taxa saiu de 2,5 e chegou a 2,8 em 2025, subindo cerca de 2,4% ao ano.
Em número absoluto, foram 5.340 mortes em 2019 e 6.043 em 2025. E isso com 14,3% mais gente no país do que em 2007, além de mais carro e mais viagem. Uma taxa parada com a população crescendo é o que "não melhorou" quer dizer aqui.
A projeção erra, e é isso que ela mostra
Se a tendência de 2013-2025 for estendida em linha reta, a taxa segue caindo de leve nos próximos anos. Mas essa reta não é um bom guia, e dá para provar: treinada apenas com os dados até 2022, ela previa 2,0 por 100 mil em 2023, 1,8 em 2024 e 1,6 em 2025. Os valores reais foram 2,6, 2,9 e 2,8. O erro cresce ano a ano (de 0,7 para 1,3 ponto na taxa) porque a reta não enxerga a virada de 2023 para cima. Que a extrapolação falhe é o resultado: no ritmo recente, a taxa não volta a cair sozinha.
Onde a curva desceu, e onde subiu
A média nacional esconde estados que puxam para lados opostos. Comparando a taxa de mortes por 100 mil habitantes da média de 2007 a 2009 com a de 2023 a 2025, RR, SE, SP são os que mais reduziram (−54%, −50%, −48%, na ordem). No outro extremo, AM, PR, PA pioraram (+44%, +33%, +10%). Nos estados com pouca malha federal, como AM, poucas mortes já mexem muito na taxa, então a variação percentual ali é ruidosa. O caso de peso é PR: rede grande, taxa alta e ainda subindo.
O que dá para concluir
- As mortes em rodovias federais caíram de forma consistente da máxima de 2011 até 2019, medidas por 100 mil habitantes. Essa parte é sólida e sobrevive à mudança de contagem.
- Desde 2019 a queda parou e a taxa voltou a subir de leve, com a população crescendo por baixo. A década de progresso estacionou.
- A alta de 57,8% na letalidade é enganosa: boa parte vem de a PRF ter passado a registrar menos acidentes entre 2014 e 2018, não de a via ter ficado mais perigosa.
- O recorte é só federal. Não há dado de distância percorrida, então o risco é medido por habitante, o que subestima a melhora. Comparações de letalidade antes e depois de 2018 não são confiáveis.