Há duas maneiras erradas de ler uma estatística de violência contra mulheres. A primeira é tratar cada alta em um registro como prova automática de mais violência. A segunda é tratar uma queda como prova de que o problema diminuiu. Registro policial é evidência indispensável, mas não é um termômetro limpo: ele depende da ocorrência, da denúncia, do atendimento, da classificação e da informação enviada pelo estado.
Este estudo olha dois desses registros, feminicídio e estupro, na base dos gestores estaduais do SINESP. A pergunta é mais modesta e mais útil: o que as séries permitem descrever, onde elas se aproximam e onde deixam de contar a mesma história? O recorte vai de 2016 a 2025, a janela nacional comum disponível para os dois indicadores.
As duas curvas sobem em ritmos e escalas diferentes
A taxa nacional de feminicídio registrado passou de 0,4 para 0,7 por 100 mil habitantes: variação de +86,4%. A de estupro passou de 28,9 para 39,1, ou +35,3%. São taxas com o mesmo denominador disponível na base, população total, mas não com o mesmo significado social. Não há uma “soma” honesta entre elas.
No último ano disponível, os dois movimentos se separaram: feminicídio ficou +3,7% acima de 2024, enquanto estupro ficou −6,7% abaixo. Uma observação anual não basta para chamar isso de virada. Ela serve para impedir que uma linha nacional esconda duas perguntas diferentes.
O mesmo mapa não serve para os dois registros
Em 2025, as maiores taxas de feminicídio da base são as de AC, RO, MT (1,6, 1,4, 1,4 por 100 mil). Para estupro, o topo é RR, MS, AP (92,2, 91,9, 89,6). A troca de ordem é o primeiro aviso contra um ranking único de “violência contra mulheres”.
A correlação de 0,52 é positiva, mas está longe de transformar um indicador no outro. Das 27 UFs, 10 ficaram acima da taxa nacional nos dois registros; 6 ficaram acima apenas em feminicídio e 5 apenas em estupro. As outras 6 ficaram abaixo nas duas medidas. Isso descreve uma distribuição, não explica suas causas.
Uma alta anual chama atenção; uma série é o que permite contexto
As barras abaixo mostram a variação de 2024 para 2025 em cada UF. Elas são úteis para localizar onde vale perguntar o que mudou no registro, na classificação ou na realidade observada. Não são placar de gestão: percentuais explodem quando a base é pequena, e uma taxa anual não identifica mecanismo algum.
A lacuna também é dado
Uma série nacional pode parecer contínua e ainda assim ter estados entrando depois. Feminicídio tem observações nacionais desde 2016; a cobertura das UFs, porém, não é igual em todos os anos. Mostrar essa diferença é parte do resultado: comparação longa entre estados só deve usar anos em que os dois lados têm dado.
O que este estudo pode afirmar
- Os registros nacionais dos dois indicadores cresceram na janela comum, com crescimento relativo maior na taxa de feminicídio.
- As UFs não ocupam as mesmas posições nos dois indicadores; uma taxa alta em um não prevê, sozinha, taxa alta no outro.
- O contraste entre 2024 e 2025 merece acompanhamento, mas não é evidência suficiente de tendência ou de efeito de uma política.
- Subnotificação, mudanças de registro e cobertura desigual impedem usar estas taxas como medida completa da violência vivida pelas mulheres.