Há duas maneiras erradas de ler uma estatística de violência contra mulheres. A primeira é tratar cada alta em um registro como prova automática de mais violência. A segunda é tratar uma queda como prova de que o problema diminuiu. Registro policial é evidência indispensável, mas não é um termômetro limpo: ele depende da ocorrência, da denúncia, do atendimento, da classificação e da informação enviada pelo estado.

Este estudo olha dois desses registros, feminicídio e estupro, na base dos gestores estaduais do SINESP. A pergunta é mais modesta e mais útil: o que as séries permitem descrever, onde elas se aproximam e onde deixam de contar a mesma história? O recorte vai de 2016 a 2025, a janela nacional comum disponível para os dois indicadores.

As duas curvas sobem em ritmos e escalas diferentes

A taxa nacional de feminicídio registrado passou de 0,4 para 0,7 por 100 mil habitantes: variação de +86,4%. A de estupro passou de 28,9 para 39,1, ou +35,3%. São taxas com o mesmo denominador disponível na base, população total, mas não com o mesmo significado social. Não há uma “soma” honesta entre elas.

10012014016018020162018202020222024FeminicídioEstupro2016 = 100
Mudança relativa das taxas nacionais: ambas começam em 100 em 2016. O índice deixa visível o ritmo de cada série; não compara seus volumes absolutos. Taxas por 100 mil habitantes. Fonte: SINESP VDE.

No último ano disponível, os dois movimentos se separaram: feminicídio ficou +3,7% acima de 2024, enquanto estupro ficou −6,7% abaixo. Uma observação anual não basta para chamar isso de virada. Ela serve para impedir que uma linha nacional esconda duas perguntas diferentes.

O mesmo mapa não serve para os dois registros

Em 2025, as maiores taxas de feminicídio da base são as de AC, RO, MT (1,6, 1,4, 1,4 por 100 mil). Para estupro, o topo é RR, MS, AP (92,2, 91,9, 89,6). A troca de ordem é o primeiro aviso contra um ranking único de “violência contra mulheres”.

Taxas de estupro e feminicídio por UF em 20250204060801000,00,51,01,52,02,5Brasil: estuproBrasil: feminicídioAC: estupro 68,4; feminicídio 1,6 por 100 mil habitantesACAL: estupro 26,4; feminicídio 0,9 por 100 mil habitantesALAM: estupro 40,9; feminicídio 0,5 por 100 mil habitantesAMAP: estupro 89,6; feminicídio 1,1 por 100 mil habitantesAPBA: estupro 34,5; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesBACE: estupro 20,6; feminicídio 0,5 por 100 mil habitantesCEDF: estupro 30,0; feminicídio 0,9 por 100 mil habitantesDFES: estupro 36,4; feminicídio 0,8 por 100 mil habitantesESGO: estupro 52,7; feminicídio 0,8 por 100 mil habitantesGOMA: estupro 30,2; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesMAMG: estupro 25,8; feminicídio 0,8 por 100 mil habitantesMGMS: estupro 91,9; feminicídio 1,1 por 100 mil habitantesMSMT: estupro 60,0; feminicídio 1,4 por 100 mil habitantesMTPA: estupro 63,2; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesPAPB: estupro 32,4; feminicídio 0,9 por 100 mil habitantesPBPE: estupro 25,4; feminicídio 0,9 por 100 mil habitantesPEPI: estupro 44,5; feminicídio 1,1 por 100 mil habitantesPIPR: estupro 57,6; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesPRRJ: estupro 34,1; feminicídio 0,6 por 100 mil habitantesRJRN: estupro 38,9; feminicídio 0,6 por 100 mil habitantesRNRO: estupro 80,5; feminicídio 1,4 por 100 mil habitantesRORR: estupro 92,2; feminicídio 0,8 por 100 mil habitantesRRRS: estupro 45,2; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesRSSC: estupro 46,2; feminicídio 0,6 por 100 mil habitantesSCSE: estupro 48,4; feminicídio 0,7 por 100 mil habitantesSESP: estupro 34,1; feminicídio 0,6 por 100 mil habitantesSPTO: estupro 54,4; feminicídio 1,3 por 100 mil habitantesTOEstupro registrado por 100 mil habitantesFeminicídio por 100 mil habitantes
Cada ponto é uma UF em 2025. As linhas pontilhadas são as taxas nacionais. Correlação de Pearson: r = 0,52; ela descreve a associação entre registros no corte, não causalidade. Fonte: SINESP VDE.

A correlação de 0,52 é positiva, mas está longe de transformar um indicador no outro. Das 27 UFs, 10 ficaram acima da taxa nacional nos dois registros; 6 ficaram acima apenas em feminicídio e 5 apenas em estupro. As outras 6 ficaram abaixo nas duas medidas. Isso descreve uma distribuição, não explica suas causas.

Taxa de Feminicídio por UF em 2025AC1,6RO1,4MT1,4TO1,3AP1,1MS1,1PI1,1DF0,9PE0,9AL0,9PB0,9MG0,8ES0,8GO0,8RR0,8SE0,7MA0,7PR0,7PA0,7RS0,7BA0,7SC0,6RJ0,6SP0,6RN0,6CE0,5AM0,5
Feminicídio registrado por 100 mil habitantes, em 2025. O botão troca a métrica, mantendo cada escala própria. Fonte: SINESP VDE.

Uma alta anual chama atenção; uma série é o que permite contexto

As barras abaixo mostram a variação de 2024 para 2025 em cada UF. Elas são úteis para localizar onde vale perguntar o que mudou no registro, na classificação ou na realidade observada. Não são placar de gestão: percentuais explodem quando a base é pequena, e uma taxa anual não identifica mecanismo algum.

Variação anual da taxa de Feminicídio por UFAM−31,7%MA−26,2%PR−20,6%ES−17,6%RR−16,8%MS−9,3%PI−7,7%BA−7,4%RJ−1,9%RN−0,3%SC+0,4%MG+4,4%GO+6,1%SP+6,5%RS+9,6%MT+11,1%CE+14,2%PE+15,5%PA+20,5%DF+26,7%AL+38,1%PB+41,6%TO+52,9%RO+66,1%SE+69,4%AC+74,3%AP+347,9%
Variação percentual da taxa de 2024 para 2025. Uma oscilação de um ano não identifica tendência nem causa; as cores só distinguem aumento e queda no registro. Fonte: SINESP VDE.

A lacuna também é dado

Uma série nacional pode parecer contínua e ainda assim ter estados entrando depois. Feminicídio tem observações nacionais desde 2016; a cobertura das UFs, porém, não é igual em todos os anos. Mostrar essa diferença é parte do resultado: comparação longa entre estados só deve usar anos em que os dois lados têm dado.

2016201720182019202020212022202320242025
Feminicídio
20
23
25
27
27
27
27
27
27
27
Estupro
25
25
27
27
27
27
27
27
27
27
Cobertura anual: número de UFs com uma observação naquele indicador. A célula não mede qualidade ou subnotificação; ela apenas impede que ausência de série vire silêncio metodológico.

O que este estudo pode afirmar

  • Os registros nacionais dos dois indicadores cresceram na janela comum, com crescimento relativo maior na taxa de feminicídio.
  • As UFs não ocupam as mesmas posições nos dois indicadores; uma taxa alta em um não prevê, sozinha, taxa alta no outro.
  • O contraste entre 2024 e 2025 merece acompanhamento, mas não é evidência suficiente de tendência ou de efeito de uma política.
  • Subnotificação, mudanças de registro e cobertura desigual impedem usar estas taxas como medida completa da violência vivida pelas mulheres.